A maior operação anticorrupção da história do mundo. Recuperou R$ 15 bilhões para as vítimas, prendeu poderosos e investigou presidentes em 12 países.
Deltan Dallagnol, coordenador da Lava Jato em Curitiba, 2014-2020
O que aconteceu em Curitiba
A Lava Jato começou em 17 de março de 2014, em Curitiba, investigando um pequeno grupo de doleiros. Acabou desmontando o maior esquema de corrupção já documentado no país, com ramificações em pelo menos 12 países e dentro de empresas como Petrobras, Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez. Eu coordenei a força-tarefa em Curitiba por seis anos, ao lado de um grupo de procuradores, delegados da Polícia Federal, auditores da Receita e juízes que toparam fazer o que ninguém tinha feito antes.
O que descobrimos não foi um caso isolado. Foi um sistema. Empreiteiras pagavam propina em troca de contratos públicos. Partidos políticos abasteciam suas máquinas com dinheiro desviado. Operadores financeiros lavavam bilhões pelo mundo. Quando montamos as peças, ficou claro: era assim que o Brasil vinha sendo governado.
O slide que ficou famoso no mundo. Em setembro de 2016, apresentei à imprensa, em coletiva, a denúncia contra Lula no caso do tríplex do Guarujá, mostrando como ele estava no centro de uma rede de evidências. A apresentação rodou o mundo e virou um dos símbolos da Lava Jato. Anos depois, o STJ, em decisão de ministros indicados pelo próprio Lula e por Dilma, me condenou a indenizar o ex-presidente por danos morais. Mais de 12 mil brasileiros se mobilizaram espontaneamente, via PIX, para me ajudar a pagar a indenização. O valor excedente foi inteiramente doado ao Hospital Erastinho, em Curitiba, que trata crianças com câncer e autismo.Agentes da Polícia Federal cumprem mandados em uma das fases da Operação Lava Jato. Em sete anos, foram cumpridos mais de 1.450 mandados de busca e apreensão.
"A Lava Jato foi o maior caso de suborno estrangeiro da história." Departamento de Justiça dos Estados Unidos.
O que mudou
Pela primeira vez em 500 anos de história, poderosos foram presos no Brasil por crimes de colarinho branco. Ex-presidentes, ex-governadores, senadores, deputados, donos das maiores empreiteiras do país, banqueiros, doleiros. Mais de 250 condenações somando 2.600 anos de pena. R$ 15 bilhões devolvidos às vítimas, sendo que R$ 6 bilhões foram só para a Petrobras, a maior vítima dos crimes.
Não foi a justiça de sempre prendendo só pobre que rouba galinha. Foi a Justiça brasileira fazendo o que sempre disseram que era impossível: tratar gente rica e poderosa como qualquer cidadão.
O ex-presidente Lula em depoimento ao então juiz Sergio Moro, em 2017. Pela primeira vez na história, um ex-presidente da República sentou no banco dos réus por crimes de corrupção.
O reconhecimento internacional
A imprensa estrangeira séria acompanhou de perto. A Economist dedicou capa e reportagens longas à operação. O New York Times e o Wall Street Journal a chamaram de modelo para o resto da América Latina. Cortes anticorrupção de outros países, de Peru a Suíça, citaram a Lava Jato em decisões. Procuradores europeus vieram a Curitiba estudar o método das colaborações premiadas.
O Departamento de Justiça americano definiu a operação como o maior caso de suborno estrangeiro já investigado. Para conseguir esse título, foi preciso colher provas em proporções inéditas: 723 pedidos de cooperação internacional, dezenas de países envolvidos, dezenas de bilhões de dólares rastreados.
"A Lava Jato fez mais bem do que mal ao país." 65% dos brasileiros que acompanharam a operação de perto. Pesquisa Quaest, 2024.
Por que a operação foi encerrada
A Lava Jato foi extinta em 2021 não porque tinha esgotado seus casos, e sim porque o sistema político reagiu. O Congresso alterou ou mutilou leis, como a Lei de Improbidade, que havia permitido ao MPF ajuizar ações que cobravam indenizações de mais de R$ 40 bilhões. O STF passou a alterar a sua própria jurisprudência e aplicar as novas regras para o passado, anulando dezenas de casos que haviam sido processados e julgados corretamente em primeira instância. Parte da imprensa, que havia apoiado a operação, passou a comprar narrativas mentirosas de advogados de defesa e de agentes políticos de esquerda interessados em destruir a operação, e passou a demonizar juízes, procuradores e policiais. O sistema reagiu, sobretudo, perseguindo quem tinha investigado e combatido a corrupção.
Em 2021, quando a operação foi formalmente encerrada, 80% dos brasileiros ainda a apoiavam, segundo pesquisa Exame/Idea. Em 2024, dez anos depois do início da Lava Jato, a Quaest mostrou que esse apoio se manteve: a maioria continua acreditando que a operação ajudou o país. Mas o sistema venceu uma batalha. Provas foram anuladas. Processos foram revertidos. Dinheiro de corrupção que havia sido devolvido por criminosos confessos retornaram para eles mesmos. Condenados voltaram para casa e, em alguns casos, voltaram para o poder.
O que continua
O que a Lava Jato provou não pode mais ser desprovado. Provou que o Brasil tem capacidade técnica, institucional e moral de enfrentar a corrupção em qualquer nível. Provou que o problema nunca foi a falta de ferramentas, foi a falta de vontade política. Provou que, quando há vontade, o cofre dos corruptos abre.
Hoje, três anos depois da minha cassação no TSE, eu volto pré-candidato ao Senado pelo Paraná pelo mesmo motivo que me levou ao Ministério Público em 2003 e à Lava Jato em 2014. A explosão de novos casos gigantescos de corrupção durante o governo Lula 3, como o escândalo do INSS e o caso Master, provam que a corrupção não acabou, e a luta contra ela também não.
O que descobrimos
Os casos que chocaram o país
Quatro histórias documentadas pela operação que materializam o que a corrupção tira do brasileiro comum.
Caso Pasadena
A refinaria comprada enferrujada
US$ 700 mi de superfaturamento
A Petrobras pagou cerca de US$ 1,2 bilhão por uma refinaria no Texas que tinha sido comprada poucos meses antes por uma fração desse preço. A planta sequer refinava o petróleo brasileiro, estava enferrujada e precisava de reforma cara. O superfaturamento, comprovado pela Lava Jato, foi de mais de US$ 700 milhões. Tudo regado a propinas.
Refinaria Abreu e Lima
A refinaria que custou 8 vezes mais
US$ 17 bi acima do orçamento
A obra foi orçada em US$ 2,5 bilhões em 2005. Terminou custando US$ 19,5 bilhões, 8,5 vezes o previsto. O TCU identificou mais de R$ 960 milhões em superfaturamento, e o esquema de propinas que turbinou os contratos foi comprovado pela Lava Jato. Quase duas décadas depois, a refinaria ainda não cobre os custos da própria operação.
Sondas Sete Brasil
Navios bilionários parados no mar
US$ 500 mil/dia parados
A Petrobras encomendou sondas de perfuração contra a recomendação técnica de que não eram necessárias. As que chegaram a ser entregues ficaram ancoradas em alto-mar, sem trabalho, cobrando aluguel diário. O prejuízo acumulado em algumas dessas embarcações chegou perto de US$ 100 milhões.
Operação Integração · Paraná
722 km de estradas que nunca foram duplicadas
Vidas perdidas no Paraná
A Operação Integração, em Curitiba, mostrou que 722 km de duplicações previstas em contratos de concessão deixaram de ser executadas em troca de propinas. A consequência: anos a mais de rodovias estreitas e perigosas, com mais acidentes e mais mortes para quem dirige no Paraná. É o que faz a frase "quem rouba milhões mata milhões" parar de ser metáfora.
O maior caso de suborno estrangeiro da história.
Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre a Operação Lava Jato
Por que isso importa
A corrupção não rouba números.Rouba vidas.
Estimativas da ONU e do Fórum Econômico Mundial indicam que a corrupção consome cerca de 5% da riqueza produzida no mundo. Aplicado ao Brasil, isso significa cerca de R$ 370 bilhões por ano. É um quarto de toda a arrecadação federal de tributos.
7 mil
hospitais a mais que o Brasil poderia ter construído em apenas um ano com esse dinheiro
55 mil
escolas a mais que o país poderia ter construído no mesmo período
2 anos
é o tempo que levaria para levar água encanada e esgoto a todos os brasileiros, com esse mesmo recurso
Fonte: estimativas baseadas em estudos da ONU, Fórum Econômico Mundial e cálculos do livro "A luta contra a corrupção" (Deltan Dallagnol, Editora Primeira Pessoa, 2017).
Os números completos
A Lava Jato em Curitiba
Esse é o balanço oficial da força-tarefa do Ministério Público Federal entre 2014 e 2021.
R$ 0 bi
devolvidos às vítimas dos esquemas de corrupção
R$ 0 bi
recuperados só para a Petrobras, maior vítima
R$ 0 bi
cobrados em ações de improbidade administrativa
0
fases da operação em Curitiba
0
mandados de busca e apreensão cumpridos
0
prisões realizadas pela operação
0
conduções coercitivas
0
acusados em 179 ações penais
0
condenações de réus
0
anos de pena somados
0
acordos de colaboração premiada
0
acordos de leniência com empresas
0
pedidos de cooperação internacional
0
presidentes e ex-presidentes investigados
0
países alcançados pelas investigações
0
de impunidade brasileira enfrentados de cabeça erguida
Fonte: balanço da força-tarefa Lava Jato, MPF/PR, 2014-2021.
Como o mundo viu
Reconhecimento internacional
U.S. DOJ
Departamento de Justiça · EUA
"O maior caso de suborno estrangeiro da história."
The Economist
The Economist · Reino Unido
"Resultados inéditos no enfrentamento da corrupção na América Latina."
Quaest
Pesquisa Quaest · 2024
"65% dos brasileiros que acompanharam de perto acreditam que a Lava Jato fez mais bem do que mal ao país."
EXAME
Pesquisa Exame/Idea · 2021
"80% dos brasileiros apoiavam a Lava Jato no momento em que ela foi extinta."
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