Origens
Nasci em 1980, em Pato Branco, no interior do Paraná. Sou filho de um promotor de Justiça e de uma professora, Agenor e Vilse Dallagnol. Desde pequeno, fui estimulado a ler, estudar e vencer pelo meu próprio esforço. Minha irmã Édelis e eu tínhamos um cronograma semanal que incluía horários de estudo, esportes, aulas de música e tarefas domésticas, e diversão e responsabilidade andavam de mãos dadas na nossa casa.
Minha mãe sempre foi meu refúgio, minha âncora e meu porto seguro. No jardim de infância, ela era a professora, então agradar a professora era, literalmente, agradar a minha própria mãe. Meu pai, por outro lado, foi quem me condicionou a ser disciplinado. Cobrava três coisas: estudos, trabalho e um comportamento correto. Por ser promotor de Justiça, fazia questão que déssemos exemplo no respeito às leis e aos valores.
Episódios como esse moldaram a forma como entendo o público e o privado, o certo e o errado, o que se deve ao próximo e o que é nosso. Cresci sabendo que privilégio não se confunde com mérito, e que mérito sem responsabilidade é vaidade. Aos 14 anos, essa infância de cronograma e exigência seria atravessada por uma mudança brusca: minha família trocaria Pato Branco por Curitiba.
A mudança
Aos 14 anos, em 1994, deixamos Pato Branco para trás. Meus pais sempre preferiram o interior, mas acreditavam que, na capital, eu e minha irmã teríamos preparo melhor para entrar em uma boa universidade. Foi assim que Curitiba virou minha cidade, e segue sendo até hoje.
Naquela época, eu me descreveria como um CDF apaixonado por esportes. No colégio novo, fiz amizade com um grupo que ficou conhecido como a "turma dos napas", surfistas e skatistas que ainda hoje estão na minha vida. Diversão e disciplina seguiram lado a lado. Enquanto a turma curtia, eu estudava madrugada adentro para o vestibular, dormindo três, quatro, cinco horas por dia. Acreditava, e ainda acredito, no poder da dedicação.
Como eu vivia entre os alunos mais bagunceiros, ninguém desconfiava. Muitos colegas se surpreenderam quando saiu o resultado: fui aprovado em primeiro lugar geral na PUC-PR e em terceiro na Universidade Federal do Paraná. Nunca esperei alcançar esses números, porque sempre tive consciência das minhas limitações e de que toda prova carrega uma dose de sorte que ninguém controla. Sabia também que parte daquilo vinha do estímulo que recebi desde o berço, das condições da minha família e da minha saúde. Por reconhecer esses privilégios, quando o colégio me premiou com um carro pelo resultado, decidi vendê-lo e doar o dinheiro, mesmo sabendo que meus pais não teriam condições de me dar um carro aos 18.
Eu ainda não sabia, mas Curitiba seria também o palco de duas decisões que mudariam o resto da minha vida: o encontro com a Fernanda, numa viagem dos napas para Mariscal, em Santa Catarina, e a escolha de uma carreira pública que viria a me consumir e a me devolver, em medidas iguais, pelos próximos vinte anos.
Fernanda
Foi no quarto ano da faculdade, numa viagem dos napas para surfar em Mariscal, Santa Catarina, que conheci Fernanda Ribeiro. Eu tinha 21 anos. Naquele período, eu vivia a crise pela qual muitos universitários passam em algum momento, sem saber direito o que fazer da vida. Como a maioria dos jovens, queria que meu trabalho fizesse alguma diferença no mundo. Estava perdido, e a Fernanda chegou exatamente nessa hora.
Logo após me formar, em 2002, entrei no que chamo de modo disciplina e comecei a estudar para os concursos públicos. Abdiquei de muita coisa para focar no objetivo, e a Fernanda me apoiou integralmente, do começo ao fim. Abnegada, perspicaz, doce e companheira, sempre me estimulou a encarar desafios. Sempre digo, e é a verdade, que ela é a melhor parte de nós dois.
Olhando para trás, percebo que muitas das melhores decisões da minha vida só foram possíveis porque a Fernanda estava do lado certo da história, segurando o que precisava ser segurado. A primeira dessas decisões viria logo, em 2002, quando eu teria que escolher entre três caminhos profissionais que, na superfície, pareciam parecidos, mas que, no fundo, eram bem distintos.
A escolha do cargo
Em 2002, logo depois da formatura, comecei a estudar para três concursos ao mesmo tempo: procurador da República, promotor de Justiça e juiz federal. Eram três profissões pelas quais eu tinha imensa admiração, e cada uma poderia ter sido um caminho legítimo. Mas, conforme estudava, fui descobrindo que a do procurador da República era a que mais combinava com o que eu queria ser, uma espécie de atividade de amor ao próximo. A profissão, então, se tornou um sonho para mim.
Quando saíram os resultados, tinha passado em primeiro lugar para promotor, em segundo para juiz federal e em décimo para procurador da República. Os colegas me perguntavam por que não ficaria com o primeiro. A resposta era simples: o cargo de procurador era o que pagava menos no início e o que tinha entrada mais difícil, mas era o que mais me deixaria fazer aquilo que sempre quis, defender o povo e enfrentar quem comete crimes contra o conjunto da sociedade.
Tomei posse em 2003 e comecei em Campinas. Logo depois retornei para Curitiba. Em 15 de março de 2005, com 25 anos de idade e dois de carreira, peguei o caso dos "Gafanhotos", uma operação contra funcionários fantasmas da Assembleia Legislativa do Paraná. A apuração desmembrou em 74 casos envolvendo 63 deputados estaduais, com valor estimado em mais de R$ 4 milhões em apenas 13 desses casos. O resultado: a maioria prescreveu, e a impunidade se manteve. Foi a primeira vez que vi de perto como o sistema brasileiro consegue absorver investigações inteiras sem responsabilizar quase ninguém.
A frustração dos Gafanhotos não me derrubou. Pelo contrário, foi ali que comecei a entender que o problema da impunidade no Brasil não era falta de provas nem de empenho de quem investigava. Era um problema de arquitetura, de regras, de prazos, de foros, de recursos infinitos. Esse entendimento iria amadurecer logo em seguida, quando entrei numa investigação que mudaria minha vida profissional para sempre.
Banestado, a primeira escola
Ainda em 2005, entrei para a força-tarefa do caso Banestado, ao lado de Orlando Martello, Carlos Fernando dos Santos Lima, Januário Paludo, da delegada Erika Marena e do auditor Roberto Leonel, que futuramente também atuariam na Lava Jato. O juiz designado para o caso era, à época, um magistrado ainda jovem chamado Sergio Moro. O foco original era o desvio de bilhões para o exterior por meio de uma rede de doleiros que operava através do antigo Banco do Estado do Paraná. Com o tempo, a apuração foi descobrindo conexões com corrupção pública e crime organizado.
O Banestado plantou a semente da Lava Jato. Foi ali que se fez, pela primeira vez na história brasileira, 18 acordos escritos de colaboração premiada, em modelo que hoje todos chamam de delação premiada. Foi ali também que devolvemos cerca de R$ 30 milhões aos cofres públicos, em uma época em que essa cifra era inédita. Do ponto de vista técnico, foi uma escola completa, e os métodos que aplicamos depois na Lava Jato vieram quase todos dali.
Mas o desfecho do Banestado foi amargo. Dos 684 acusados, apenas sete foram presos depois do fim do processo, um índice de 1,9%. Os demais escaparam pelas brechas do sistema: prescrição, anulações, recursos infinitos, foros privilegiados. Em 9 de setembro de 2008, o STJ anulou as interceptações telefônicas decisivas do caso. Toda a investigação principal caiu, e mais de cinquenta outras apurações ligadas desabaram junto.
Harvard
No fim de 2011, com 31 anos e 7 de Ministério Público, tomei uma decisão que mudou minha forma de enxergar a Justiça brasileira: fui fazer mestrado em Direito na Harvard Law School. A motivação era simples e quase ingênua. Trabalho inútil é a coisa mais desmotivadora que existe, e depois do Banestado eu sentia que precisava entender como outros países resolviam problemas que aqui pareciam sem solução.
Lá descobri o óbvio para quem nunca tinha cruzado fronteira institucional: nos Estados Unidos, os políticos não têm foro privilegiado e são julgados como qualquer cidadão. Foi uma das muitas jabuticabas brasileiras que ficaram evidentes na comparação. A rotina em Cambridge era exigente, e eu absorvi tudo o que pude, sentado em sala de aula com procuradores federais americanos, lendo sentenças, discutindo casos.
A volta para o Brasil aconteceu em meados de 2013. A Fernanda estava grávida do nosso primeiro filho, e o amor por um filho é uma coisa que não cabe em descrição. Voltei a atender a função de procurador da República, e logo nas primeiras semanas procurei um amigo de carreira, o procurador Daniel Salgado, para começarmos a transformar o que aprendi em Harvard em um pacote concreto de mudanças legislativas. Esse pacote viria a se chamar, anos depois, 10 Medidas Contra a Corrupção.
Em paralelo, a delegada Erika Marena, ex-companheira de Banestado, começou a me convidar para reuniões sobre uma nova investigação contra doleiros que estava sendo gestada no Paraná. Eu não dei muita atenção no início, porque queria começar a dar aulas e escrever em paralelo ao trabalho no MPF. Mas algumas semanas depois, naquele começo de 2014, uma porta bateria literalmente na minha sala e tudo o que eu tinha planejado para os próximos dois anos teria que esperar.
"Você topa?"
No fim de fevereiro de 2014, num dia que parecia banal, Letícia Martello bateu à porta do meu gabinete. Coordenadora do grupo da área criminal do MPF no Paraná, ela entrou com a liberdade de quem me conhecia há mais de 10 anos. "Você topa?", perguntou, visivelmente ansiosa por uma definição que vinha sendo adiada havia semanas.
Minha primeira reação foi recusar. A investigação parecia pequena, sobre doleiros locais, e eu tinha planos para os próximos meses, incluindo uma viagem com a Fernanda já marcada. Letícia não desistiu. "Mas e se formarmos uma força-tarefa para o caso?", insistiu. Aí mudou. Não era mais uma investigação solitária, era uma operação inteira. Eu aceitei.
Três semanas depois, em 17 de março de 2014, foi deflagrada a Operação Lava Jato. Eu coordenei a força-tarefa em Curitiba por seis anos. O que começou como apuração contra doleiros virou a maior investigação de corrupção da história do Brasil e uma das maiores do mundo. O Departamento de Justiça americano chegou a chamá-la, anos depois, de "maior caso de suborno estrangeiro da história".
Em números secos: R$ 15 bilhões devolvidos às vítimas, sendo R$ 6 bilhões só à Petrobras. 295 prisões. 250+ condenações somando 2.600 anos de pena. 79 fases da operação em Curitiba. 209 acordos de colaboração premiada e 17 acordos de leniência com empresas. 14 presidentes e ex-presidentes investigados em 12 países. Foi a primeira vez, em 500 anos de Brasil, que poderosos foram julgados como qualquer cidadão.
"Quem rouba milhões mata milhões."
Em casa
Eu e Fernanda temos três filhos: Thomas, Luísa e Sofia. Quem trabalhou ao meu lado durante os seis anos da Lava Jato sabe que nenhum dia foi normal. Eram ameaças anônimas, processos administrativos disciplinares abertos por desafetos, tentativas constantes de desmoralização pública, semanas inteiras em que eu chegava em casa depois da meia-noite e saía antes do café da manhã.
Quem segurou a casa nesses anos foi ela. A Fernanda. E quando digo segurou, não estou usando metáfora. Foi ela quem cuidou do que importava de verdade enquanto eu cuidava do que precisava ser feito profissionalmente. Filho não pergunta se papai está cansado, papai está com prazo, papai está sendo atacado na televisão. Filho pergunta se papai pode brincar. E foi ela quem inventou jeitos de continuar respondendo "sim" no meu lugar.
Quando me perguntam por que sigo na luta depois de tudo o que aconteceu, depois das ameaças, depois da cassação, a resposta passa sempre por essa mesa de café da manhã em Curitiba. Eu quero que eles herdem um país que valha a pena. Não um país perfeito, isso não existe. Mas um país menos roubado, menos covarde, mais honesto.
O voto que ninguém esperava
Quando deixei a coordenação da Lava Jato, em 2020, comecei a ouvir o mesmo conselho de pessoas muito diferentes: alguém precisava levar a agenda anticorrupção para dentro do Congresso. Resisti durante meses. Eu nunca tinha sido candidato, nunca tinha pertencido a um partido, e a política sempre me pareceu o lugar onde as ideias boas vão para morrer. Mas, em algum momento de 2021, ficou claro que ou alguém pegava essa pauta dentro do Parlamento, ou ela ficaria condenada a circular fora dele.
Em 2022, fui candidato a deputado federal pelo Paraná. Foi uma campanha enxuta, sem fortuna pessoal, sem máquina, sem aparato. Tinha uma equipe pequena, voluntários que se ofereceram do nada, e a confiança das pessoas que acompanharam a Lava Jato de perto.
No dia da apuração, o resultado me deixou sem palavras. 344.917 votos. Nenhum outro deputado federal teve mais votos no Paraná naquela eleição. Eu seria o mais votado do estado. Aquilo não era um voto em mim. Era um voto na ideia de que a agenda anticorrupção precisava chegar onde as decisões acontecem.
Tomei posse em fevereiro de 2023. Cheguei à Câmara com os pacotes legislativos prontos, com propostas técnicas, com agenda de combate à corrupção e ao crime organizado. Estava pronto para trabalhar. O sistema, por outro lado, tinha outros planos.
Sete a zero
Em 16 de maio de 2023, três meses depois da minha posse, o Tribunal Superior Eleitoral, em decisão unânime de sete votos a zero, cassou meu mandato. O fundamento alegado foi uma interpretação absurda da Lei da Ficha Limpa, que não se aplicava ao meu caso, em retaliação pela atuação na Lava Jato.
Quando saí da Câmara naquela tarde, encontrei meus aliados na coletiva com cartazes. "344 mil votos calados." "Perseguição política não é Justiça." "Vivemos numa ditadura." Eu olhei para cada um daqueles rostos sabendo que aquele dia não era sobre mim. Era sobre o direito de uma maioria de cidadãos de escolher quem os representa, e sobre o costume institucional brasileiro de retirar candidaturas que incomodam.
Mais importante do que o desfecho jurídico, era o que aquela cassação dizia sobre o estado da democracia. Quando 344 mil votos podem ser anulados por interpretação de juízes não eleitos, o problema não é apenas comigo. O problema é com todos nós.
Hoje
Três anos depois da cassação, volto pré-candidato ao Senado da República pelo Paraná pelo partido Novo. Vivo com a Fernanda e os três filhos na mesma cidade que me adotou aos 14 anos.
A motivação é a mesma de 2003, quando entrei no Ministério Público, e de 2014, quando topei coordenar a Lava Jato. Mudou só o lugar. Onde antes a luta era no inquérito, depois foi na lei. Agora vai para o Senado. E mudou também quem pode entrar nela junto. Agora, qualquer cidadão pode.
Esta página não é sobre mim. É sobre quem decidiu que o Brasil ainda merece honestidade. Se você chegou até aqui, é porque uma parte do que está escrito acima também é a sua história. Eu sigo na luta. Você decide se entra nessa.